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O Pica-pau

O médico das árvores doentes: vida e segredos nas florestas italianas
O Pica-pau
Animais das Árvores Pássaros das Árvores 08/07/2027

Há um som na floresta que não deixa dúvidas: um martelar seco, rítmico, poderoso que se ouve a 500 metros de distância. Depois silêncio. Depois aquele bater novamente — diferente do primeiro, talvez mais distante. Os pica-paus estão a trabalhar. E o seu trabalho, embora pareça simples à primeira vista, é uma das tarefas mais complexas e mais importantes que existem no ecossistema da floresta italiana.

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Quem são os pica-paus italianos

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Seis espécies de pica-paus vivem em Itália, todas protegidas por lei. O pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major) é o mais comum e distribuído, encontrado em quase todas as florestas italianas desde as planícies até às montanhas. Tem o tamanho de um melro, com o dorso preto e branco e vermelho brilhante nas coberteiras da cauda (e na coroa nos machos). O pica-pau-verde (Picus viridis) é maior, com o dorso verde e cabeça vermelha, e alimenta-se principalmente de formigas nos prados — ouve-se frequentemente o seu grito que parece uma gargalhada (o seu nome em muitas línguas evoca o riso). O pica-pau-preto (Dryocopus martius) é o maior da Europa, quase do tamanho de um corvo, completamente preto com uma crista vermelha brilhante. Habita as grandes florestas de coníferas e faias dos Alpes e Apeninos do norte. O pica-pau-malhado-pequeno (Dendrocopos minor), o torcicolo (Jynx torquilla, um migrante que não perfura), e o pica-pau-de-dorso-branco (Dendrocopos leucotos, muito raro) completam a família italiana.

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A mecânica da bicada: engenharia extraordinária

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O pica-pau-malhado-grande bate na madeira a uma velocidade de 18-22 bicadas por segundo, com cada bicada entregando uma desaceleração de cerca de 1.000 g (mil vezes a força da gravidade) ao crânio. Para comparação, um boxeador que recebe um soco experimenta uma desaceleração de cerca de 58 g — o suficiente para causar danos cerebrais se repetido. Como é que o pica-pau sobrevive a este bombardeio diário sem danos neurológicos? A resposta está numa série de adaptações anatómicas extraordinárias: o bico em forma de cinzel é assimétrico (a mandíbula inferior é ligeiramente mais longa) e feito de queratina ultra-dura; o crânio espesso com osso esponjoso entre a caixa craniana e o bico absorve vibrações; o cérebro é inclinado cerca de 3 graus na caixa craniana, distribuindo melhor o impacto na superfície superior (menos vascularizada) do que na área frontal (mais delicada); músculos do pescoço poderosos e sincronizados absorvem grande parte da energia do impacto; finalmente, a membrana nictitante (terceira pálpebra) fecha-se um milissegundo antes de cada bicada, protegendo o olho do impacto com fragmentos de madeira. Engenheiros aeroespaciais e investigadores de segurança automóvel estudam a estrutura do crânio do pica-pau para melhorar os sistemas de absorção de impacto.

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A língua: a ferramenta secreta

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Ainda mais extraordinária do que o bico é a língua do pica-pau. Nos pica-paus-malhados é longa, pegajosa e com gancho na ponta — pode estender-se até 4 centímetros para além da ponta do bico para alcançar larvas escondidas nas galerias da madeira. Nos pica-paus-verdes a língua é ainda mais longa (até 10 cm para além do bico) e coberta de saliva pegajosa para apanhar formigas. Mas a parte mais surpreendente é como a língua se "enrola" quando não está em uso: o osso hióide que a suporta (o hióide é o suporte esquelético da língua) é alongado e estende-se para fora da boca, enrolando-se à volta do crânio — literalmente, a língua enrola-se à volta da cabeça.

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As cavidades: o legado do pica-pau para a floresta

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A contribuição ecológica mais importante do pica-pau não é o que come, mas o que constrói. O pica-pau perfura cavidades em madeira morta ou doente para nidificar. Todos os anos perfura uma nova cavidade — nunca usa a mesma duas vezes. As cavidades abandonadas são imediatamente disputadas por dezenas de outras espécies que não conseguem perfurar por conta própria: mocho-galego, coruja-do-mato, rabirruivos, torcicolos, trepadeiras, chapins-reais, chapins-dos-pântanos, morcegos, lirões, esquilos, lirões-cartuxa. Numa floresta onde os pica-paus estão ausentes, estas espécies não têm onde nidificar. É por isso que o pica-pau é chamado uma espécie-guarda-chuva: proteger o pica-pau significa automaticamente proteger dezenas de outras espécies que dependem do seu trabalho de carpintaria.

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Tamborilar: comunicação por percussão

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O pica-pau usa a bicada não apenas para se alimentar mas também para comunicar: o tamborilar territorial (bater rápido em ramos secos ou cavidades ressonantes) serve para sinalizar a presença do território e para atrair um parceiro durante a época de reprodução. Cada espécie tem um padrão de tamborilar reconhecível em termos de frequência e duração: o pica-pau-malhado-grande bate 10-16 bicadas em 1-2 segundos; o pica-pau-preto bate mais lentamente (10-17 bicadas) mas durante mais tempo. Reconhecer o tamborilar de diferentes pica-paus é uma das competências mais gratificantes para quem se inicia na observação de aves nas florestas italianas.

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O pica-pau não constrói cavidades para si: constrói-as e depois deixa-as para quem vier a seguir. Cada buraco num tronco morto é um apartamento que alguém vai habitar. Não saber isto é perder metade da história da floresta por onde caminha.

Como observar o pica-pau na floresta: dicas práticas

  • Ouça antes de olhar: o pica-pau é ouvido muito antes de ser visto. O tamborilar pode ser escutado até 500 metros de distância numa floresta silenciosa. O grito do pica-pau-verde (uma longa série de notas descendentes que parecem gargalhadas) pode ser ouvido até um quilómetro de distância. Quando ouve o tamborilar, pare, localize a direção e aproxime-se lentamente sem fazer barulho.
  • Procure sinais no tronco: mesmo sem encontrar um pica-pau, pode reconhecer a sua presença através de sinais na madeira morta: buracos retangulares ou ovais escavados na madeira (não os buracos redondos das larvas de insetos, mas buracos irregulares e alongados), aparas de madeira na base dos troncos, sulcos cavados ao longo das galerias de larvas sob a casca. O pica-pau-preto deixa buracos grandes e característicos (5-8 cm de diâmetro) em faias e abetos mortos.
  • Instale uma caixa-ninho para pica-paus: para o pica-pau-malhado e o pica-pau-malhado-pequeno, usam-se caixas com um buraco de entrada de 35-45 mm de diâmetro. A madeira deve ser natural (sem pintura), o buraco deve ser frontal e protegido da chuva, e a caixa deve ser posicionada a 3-5 metros de altura numa árvore com um tronco de pelo menos 15 cm de diâmetro. A presença de caixas-ninho em jardins com árvores aumenta significativamente a biodiversidade local.
  • Binóculos e paciência: para observar o pica-pau em ação, os binóculos são essenciais (8x42 ou 10x42 são os formatos mais comuns para observação de aves em floresta). Depois de localizar o tamborilar, posicione-se com o sol às costas, mantenha-se imóvel e aguarde: o pica-pau costuma voltar ao mesmo tronco em poucos minutos.
  • Com crianças — o jogo do pica-pau: peça às crianças para imitarem o tamborilar batendo com os nós dos dedos em diferentes materiais (madeira dura, madeira mole, plástico) e adivinhem qual som é mais "parecido com um pica-pau". Explique que o pica-pau escolhe ramos ressonantes de propósito para fazer a sua mensagem ser ouvida mais longe — usa a física do som como ferramenta de comunicação.
  • Aplicações de canto de aves: as aplicações Merlin Bird ID (Cornell Lab) e BirdNET permitem identificar aves gravando os seus gritos ou tamborilares com o microfone do telemóvel. São gratuitas e têm uma precisão muito elevada para as espécies europeias comuns. Com estas aplicações, reconhecer o tamborilar do pica-pau-malhado do pica-pau-preto torna-se um jogo acessível até para principiantes.

O pica-pau é um daqueles animais que, uma vez que o conhece, não consegue ouvir na floresta sem parar. Aquele martelar que antes parecia apenas ruído de fundo torna-se subitamente o trabalho de um dos construtores de habitats mais importantes da floresta. E a floresta torna-se um lugar mais rico, mais vivo, mais cheio de histórias.

Perguntas Frequentes

Como é que o pica-pau consegue resistir aos golpes repetidos no crânio sem sofrer danos?

O pica-pau tem adaptações anatómicas únicas: um bico assimétrico e duro, um crânio com osso esponjoso que absorve o impacto, um cérebro inclinado para distribuir o impacto, músculos do pescoço poderosos e uma terceira pálpebra que protege os olhos. Estes elementos reduzem as vibrações e evitam danos neurológicos.

Qual é o papel ecológico das cavidades escavadas pelos pica-paus nas florestas?

As cavidades escavadas pelos pica-paus em madeira morta ou doente são essenciais para a nidificação de muitas espécies que não conseguem escavar por si próprias, como corujas, morcegos e esquilos. Proteger o pica-pau significa, portanto, salvaguardar todo um ecossistema florestal.

Como é que pode reconhecer a presença de um pica-pau na floresta sem o ver?

Pode ouvir o tamborilar, um som de batida audível até 500 metros de distância, ou o grito característico do pica-pau-verde. Além disso, notará sinais na madeira morta, como buracos irregulares, aparas de madeira na base dos troncos e sulcos cavados sob a casca.

Que características deve ter uma caixa-ninho para atrair pica-paus-malhados e pica-paus-malhados-pequenos?

A caixa-ninho deve ter um buraco de entrada frontal de 35-45 mm de diâmetro, ser feita de madeira natural sem pintura, estar posicionada a 3-5 metros de altura numa árvore com um tronco de pelo menos 15 cm de diâmetro e estar protegida da chuva para aumentar a biodiversidade local.

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