A Coruja-do-Mato
Caçadora noturna entre as árvores: hábitos, curiosidades e simbolismo
Em certas noites no campo, o silêncio é quebrado por um som que parece um grito distante, melancólico, um tanto assustador. Ku-wìt. De novo: ku-wìt. É a coruja-do-mato. Não é um presságio de desgraça — é apenas uma pequena fêmea de ave de rapina noturna a anunciar o seu território a partir do ramo de uma velha oliveira ou da ombreira de uma casa de campo. Uma das vozes mais antigas da noite rural portuguesa.
nnQuem é a coruja-do-mato
nnA coruja-do-mato (Athene noctua) é a ave de rapina noturna mais disseminada em Portugal. É pequena — cerca de 22-25 cm, mal maior que um estorninho — com a cabeça redonda e larga, olhos amarelos penetrantes posicionados frontalmente, sobrancelhas brancas que lhe conferem uma expressão perpetuamente carrancuda e desconfiada. A sua plumagem é acastanhada com manchas e estrias brancas que lhe permitem confundir-se perfeitamente com a casca das árvores. É a única ave de rapina noturna portuguesa frequentemente ativa durante o dia — pode vê-la empoleirada à luz do sol numa estaca de telefone, uma rocha ou um ramo exposto. A sua distribuição por todo o país é ubíqua: desde as planícies às colinas, dos campos agrícolas às cidades, das florestas aos cemitérios. É uma das aves mais comuns na paisagem rural portuguesa, embora os seus números tenham diminuído significativamente nas últimas décadas devido às mudanças nas práticas agrícolas e ao uso de pesticidas.
nnAudição fenomenal: caçar na escuridão absoluta
nnA coruja-do-mato caça principalmente à noite, e a sua principal ferramenta de caça não são os olhos — é a audição. Os ouvidos da coruja-do-mato (como os de todas as Strigidae) estão posicionados assimetricamente no crânio: um ouvido é ligeiramente mais alto do que o outro. Esta assimetria permite-lhe localizar a fonte sonora não apenas horizontalmente (como faríamos nós) mas também verticialmente, conseguindo uma localização precisa tridimensional. Em experiências laboratoriais realizadas em completa escuridão, as corujas-do-mato localizam e capturam ratos com 100% de precisão, guiadas apenas pelo farfalhar dos seus movimentos na palha. A coruja-do-mato percebe sons até 10 oitavas — um intervalo auditivo muito superior à audição humana. O disco facial — a característica "máscara" de penas arredondadas que rodeia a face de todas as aves de rapina noturnas — funciona como uma parábola acústica: recolhe ondas sonoras e concentra-as em direção aos ouvidos, amplificando sons fracos por um fator de 4-5 comparado com um "ouvido" normal.
nnAs árvores da coruja-do-mato
nnA coruja-do-mato está intimamente ligada às cavidades de árvores para nidificação. Nidifica em buracos naturais de carvalhos, oliveiras, cerejeiras, nogueiras e outras árvores de fruto — especialmente em exemplares antigos com grandes cavidades. Também utiliza cavidades criadas por pica-paus, nichos em paredes, sótãos de casarões, fissuras em rochas. O desaparecimento de velhas árvores de fruto com cavidades naturais — substituídas por pomares intensivos com árvores jovens sem buracos — é uma das principais causas do declínio da coruja-do-mato na paisagem agrícola portuguesa. A coruja-do-mato é também uma das aves que mais beneficia com caixas de nidificação artificiais: estabelecer programas de nidificação artificial em áreas agrícolas tem mostrado excelentes resultados no apoio às populações locais.
nnA coruja-do-mato na cultura: entre a sabedoria e os maus presságios
nnNa cultura grega antiga, a coruja-do-mato era o símbolo animal de Atena, deusa da sabedoria — daí a sua associação com a inteligência e o conhecimento, que sobreviveu nos símbolos universitários e em moedas. A moeda de um euro grega ainda apresenta a coruja-do-mato de Atena hoje em dia, extraída das antigas dracmas atenienses. Na cultura popular medieval e moderna portuguesa (e europeia), a coruja-do-mato está em vez disso frequentemente associada à morte e à desgraça — o seu grito noturno perto de uma casa era tradicionalmente interpretado como um anúncio de perda iminente. Esta superstição levou durante séculos à perseguição da coruja-do-mato: eram empaladas nas portas das cavalariças para afastar a má sorte. Hoje é uma espécie protegida a nível nacional e internacional.
nnA dieta da coruja-do-mato: a egagrópila dos gourmets da natureza
nnA coruja-do-mato alimenta-se principalmente de ratos, arganaz, grilos, escaravelhos, minhocas e lagartos. É um dos controladores biológicos naturais mais eficientes de roedores nos campos agrícolas: um casal de corujas-do-mato com crias consome centenas de ratos durante a época de reprodução — um serviço ecossistémico de valor económico real para os agricultores. A coruja-do-mato (como todas as aves de rapina noturnas) produz egagrópilas (ou pelotas): regurgitações compactas de pelos, ossos e quitina de insetos que não consegue digerir. As egagrópilas da coruja-do-mato encontram-se sob os seus poleiros preferidos e são facilmente reconhecíveis. Dissecá-las (com luvas e pinças) revela exatamente o que a coruja-do-mato comeu nas últimas 24-48 horas: um laboratório de ecologia natural acessível também às crianças.
A coruja-do-mato não traz desgraça — traz ordem ecológica. Todas as noites, enquanto dorme, está lá fora a fazer o seu trabalho: manter o equilíbrio das populações de ratos, grilos e escaravelhos no seu território. É o turno da noite que nunca teve de pagar.
Como atrair corujinhas-do-mato perto de casa: dicas práticas
- Instale um ninho para corujinha-do-mato: o ninho ideal tem dimensões internas de cerca de 35×25×25 cm com um buraco de entrada de 8-9 cm de diâmetro. Deve ser posicionado a 3-5 metros de altura numa árvore ou edifício, com a abertura virada para leste ou nordeste para evitar o sol da tarde. No interior, coloque uma camada de aparas de madeira (não serradura: é demasiado fina). O ninho deve ser limpo todos os anos em setembro-outubro (após a época de reprodução).
- Não use rodenticidas: os venenos para ratos (anticoagulantes de segunda geração como brodifacum) acumulam-se nos tecidos dos roedores envenenados e matam os rapinantes noturnos que os comem. É a principal causa de envenenamento secundário em corujinhas-do-mato e corujas-das-torres em Itália. Se tem um problema de ratos, use armadilhas mecânicas — ou instale um ninho para corujinha-do-mato e deixe que ela faça o trabalho.
- Preserve árvores de fruto antigas: oliveiras, cerejeiras, nogueiras e carvalhos velhos com cavidades naturais são o habitat principal da corujinha-do-mato na paisagem agrícola italiana. Se tem árvores antigas com buracos, não as corte pela idade: contêm ecossistemas invisíveis que dependem dessas cavidades.
- Ouça o canto à noite: o canto da corujinha-do-mato é muito fácil de aprender e reconhecer. O ku-wìt agudo da fêmea (o "canto de abertura"), respondido pelo canto mais grave do macho. Na primavera, durante os períodos de acasalamento (janeiro-março), os duetos entre macho e fêmea são frequentes e prolongados em noites claras. Abra a janela numa noite de março e escute.
- Com crianças — a egagrópilas da corujinha-do-mato: encontrar uma egagrópila debaixo de um poleiro de corujinha-do-mato (procure sob beirais de telhados, na base de árvores com cavidades, sob postes telefónicos perto de campos) é uma aventura na natureza acessível a todos. Leve para casa, coloque de molho em água morna durante 10 minutos, depois abra-a cuidadosamente com uma pinça e separe ossos e pelos. Identifique os ossos: este é um fémur de rato, este é um crânio de rato-do-campo. É um laboratório de zoologia a custo zero.
- Denuncie corujinhas-do-mato em dificuldade: corujinhas-do-mato feridas ou desorientadas durante o dia (podem ficar atordoadas por colisões com carros ou janelas) devem ser recolhidas com luvas e levadas ao CRAS (Centro de Recuperação de Animais Selvagens) mais próximo. Não as mantenha em casa: são animais selvagens protegidos e requerem cuidados especializados.
A corujinha-do-mato não precisa de vastas florestas: contenta-se com uma oliveira velha com um buraco, um campo com ratos suficientes, uma noite tranquila para caçar. O mínimo que podemos fazer é parar de envenenar os seus ratos e deixar-lhe as árvores antigas. O resto ela faz sozinha, admiravelmente, há milénios.
Perguntas Frequentes
Como é que a corujinha-do-mato localiza a presa na escuridão total?
A corujinha-do-mato utiliza audição assimétrica, com orelhas posicionadas a alturas diferentes, o que lhe permite localizar sons em três dimensões. O disco facial amplifica sons fracos, permitindo-lhe caçar com precisão mesmo sem luz.
Quais são as características ideais de um ninho para corujinha-do-mato?
O ninho ideal mede cerca de 35×25×25 cm com um buraco de entrada de 8-9 cm de diâmetro. Deve ser posicionado a 3-5 metros de altura, com a abertura virada para leste ou nordeste, e conter uma camada de aparas de madeira que não sejam demasiado finas.
Por que é importante preservar árvores antigas com cavidades para a corujinha-do-mato?
As árvores antigas com cavidades naturais são essenciais para o nidificar da corujinha-do-mato. O seu desaparecimento reduz os habitats disponíveis, contribuindo para o declínio das populações de corujinha-do-mato, especialmente em paisagens agrícolas intensivas.
O que acontece se forem utilizados rodenticidas em áreas frequentadas por corujinhas-do-mato?
A utilização de rodenticidas causa envenenamento secundário em corujinhas-do-mato, que ficam envenenadas ao comer roedores contaminados. Esta é uma das principais causas de morte nestes rapinantes noturnos, comprometendo o seu papel no controlo natural de roedores.
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